09/10/2013

010 — File#01: Deutscher Werkbund

A Deutsche Werkbund (DWB) foi um grupo fundado para promover a simbiose do zelo artístico com a produção em massa, que veio a influir o entusiasmo com que se deu o progresso do design modernista e do funcionalismo, particularmente na formação da Bauhaus.

Jarro de água da Fischer (1914)


O objecto que escolhi da exposição Deutscher Werkbund foi o heißwasserkanne (jarro de água) da Fischer de 1914, presente nas colecções do Museu Bröhan e no Bauhaus Archiv. Está também patente na Deutsches Warenbuch de 1915. É um relevante  precursor do modernismo e frequentemente comparada a peças contemporâneas da Deutscher Werkbund. É atribuída por várias fontes a Richard Riemerschmid, um dos fundadores desta organização, facto não confirmado pelo Bröhan.

Chaleira Hot Bertaa (1989), Phillip Stark


Como resposta contemporânea ao jarro da Fischer escolhi um objecto de cozinha desenhado por Phillip Starck: a chaleira Hot Bertaa, de 1989. Esteve em produção durante apenas cerca de sete anos (1990-1997), mas concedeu uma maior participação no mercado aos  fabricantes Alessi. A ideia era tornar um objecto de design produzido em massa num produto premium para o mercado de ofertas. Foi retirado do mercado por problemas de produção. O designer vê o objecto como um falhanço, referindo-se ao mesmo como ‘uma das minhas piores peças de sempre. Não é funcional, está ultrapassada e é demasiado ligado à moda’. Contudo, Alberto Alessi acredita que o falhanço é uma parte importante na inovação do design.

O jarro tem uma forma esférica com uma peça superior em forma de chávena, suporte curvo para polegar e uma alça coberta de ráfia. O jarro é concebido em bronze niquelado martelado à mão. Tem um interior revestido por estanho e tem na base a marca da Fischer (dois peixes numa elipse). Tem cerca de 22cm de altura.

O design de Starck reduz a estética de como uma chaleira deveria parecer à sua forma mais simples. O cabo e a bica são uma só peça de termoplástico moldado que perfura o corpo escultórico da chaleira feito de alumínio revestido e moldado por injecção. Foi desenhado para ser uma chaleira funcional, mas o produto resultante era muito difícil de usar. Não obstante a sua pobre funcionalidade, Alberto Alessi descreveu o Hot Bertaa ‘um fiasco belo’, enaltecendo-o pela sua tomada lúdica de uma actividade trivial.

A razão que me levou a escolher, em primeiro lugar, o jarro Fischer, foi a sua apresentação visual: as cores em tons de bronze e dourado, reminiscentes da simultaneamente da terra mas também do ascético. Em segundo, a textura apresentada pela forma como foi trabalhada (martelado à mão) torna vinculada a relação física que se teve com o objecto no acto da sua criação, em contraste com o design modernista do todo e das partes mais delicadas, como o descanso de polegar ou a alça revestida de ráfia. Se por um lado lembra a realidade física que a materializou — o passado, em que se manufacturava individualmente cada peça — por outro forma uma ponte coerente com o futuro, pela sua forma despreocupada de motivos decorativos desnecessários, tendo presente em si apenas aquilo que é necessário à sua função e as linhas fundamentais que lhe concedem um equilíbrio estético.

O que me levou a optar pela chaleira Hot Bertaa foi a sua aparência minimalista, futurista, abstracta, e o facto de esta não se adaptar adequadamente à sua funcionalidade. O contraste criado pela oposição dos dois objectos demonstra como é evidente, na evolução do design, o reflexo de uma sociedade crescentemente materialista e supérflua, regida pela ostentação intelectual das aparências e subjugada à corrente das modas. 

1 comentário:

  1. Muito bem.
    Pena é saltares do jarro para a chaleira não sistematicamente.
    No entanto, o texto está interessante e pessoal.
    Prof. Victor M Almeida
    /

    ResponderEliminar