13/10/2013

013 — a morte do lugar ][ a morte do ser



012 — Os Jardins do Paraíso

"De vez em quando, Lisboa tem crepúsculos misteriosos. Uma luminosidade fulva envolve a cidade, veste-a, e ela desata a arder. Depois, a fina bruma esconde o Tejo, a ponte, os fumos negros da outra margem. A cidade desaparece, aos poucos, sob um lençol de branca humidade. Faz hoje um ano, precisamente, que ela desapareceu. A noite caía, como hoje, lenta e húmida. Lembro-me de tudo como se fosse neste preciso instante...
Vinha do sul, e quando cheguei à ponte fui obrigado a seguir o ritmo enervante do engarrafamento. Ao fim de hora e meia consegui entrar na cidade, cansado e com os nervos esticados a ponto de rebentarem.
A noite pairava, suspensa, sobre o casario. Lisboa - enquadrada pelo pára-brisas assemelhava-se a um cenário de filme. Cobria-a uma luz enevoada, e assim que a noite a engoliu por completo, iluminou-se.
Mas apesar de iluminada, quase profusamente, parecia uma cidade deserta."
Al Berto,
in "Os Jardins do Paraíso", Lisboa: Curta-Metragem,
                                  "VER", Verão 1994, No 72, pp. 122-125 

011 — a morte é o enganador mais promíscuo

a morte é o enganador mais promíscuo. não sabemos se chega sozinha ou se nos prolongamos na eternidade do universo. a ansiedade torna-se mais sólida, como um casulo que cresce dentro do peito. encontra-se no compassar incessante dos dias, provas únicas de que estamos aqui.

09/10/2013

010 — File#01: Deutscher Werkbund

A Deutsche Werkbund (DWB) foi um grupo fundado para promover a simbiose do zelo artístico com a produção em massa, que veio a influir o entusiasmo com que se deu o progresso do design modernista e do funcionalismo, particularmente na formação da Bauhaus.

Jarro de água da Fischer (1914)


O objecto que escolhi da exposição Deutscher Werkbund foi o heißwasserkanne (jarro de água) da Fischer de 1914, presente nas colecções do Museu Bröhan e no Bauhaus Archiv. Está também patente na Deutsches Warenbuch de 1915. É um relevante  precursor do modernismo e frequentemente comparada a peças contemporâneas da Deutscher Werkbund. É atribuída por várias fontes a Richard Riemerschmid, um dos fundadores desta organização, facto não confirmado pelo Bröhan.

Chaleira Hot Bertaa (1989), Phillip Stark


Como resposta contemporânea ao jarro da Fischer escolhi um objecto de cozinha desenhado por Phillip Starck: a chaleira Hot Bertaa, de 1989. Esteve em produção durante apenas cerca de sete anos (1990-1997), mas concedeu uma maior participação no mercado aos  fabricantes Alessi. A ideia era tornar um objecto de design produzido em massa num produto premium para o mercado de ofertas. Foi retirado do mercado por problemas de produção. O designer vê o objecto como um falhanço, referindo-se ao mesmo como ‘uma das minhas piores peças de sempre. Não é funcional, está ultrapassada e é demasiado ligado à moda’. Contudo, Alberto Alessi acredita que o falhanço é uma parte importante na inovação do design.

O jarro tem uma forma esférica com uma peça superior em forma de chávena, suporte curvo para polegar e uma alça coberta de ráfia. O jarro é concebido em bronze niquelado martelado à mão. Tem um interior revestido por estanho e tem na base a marca da Fischer (dois peixes numa elipse). Tem cerca de 22cm de altura.

O design de Starck reduz a estética de como uma chaleira deveria parecer à sua forma mais simples. O cabo e a bica são uma só peça de termoplástico moldado que perfura o corpo escultórico da chaleira feito de alumínio revestido e moldado por injecção. Foi desenhado para ser uma chaleira funcional, mas o produto resultante era muito difícil de usar. Não obstante a sua pobre funcionalidade, Alberto Alessi descreveu o Hot Bertaa ‘um fiasco belo’, enaltecendo-o pela sua tomada lúdica de uma actividade trivial.

A razão que me levou a escolher, em primeiro lugar, o jarro Fischer, foi a sua apresentação visual: as cores em tons de bronze e dourado, reminiscentes da simultaneamente da terra mas também do ascético. Em segundo, a textura apresentada pela forma como foi trabalhada (martelado à mão) torna vinculada a relação física que se teve com o objecto no acto da sua criação, em contraste com o design modernista do todo e das partes mais delicadas, como o descanso de polegar ou a alça revestida de ráfia. Se por um lado lembra a realidade física que a materializou — o passado, em que se manufacturava individualmente cada peça — por outro forma uma ponte coerente com o futuro, pela sua forma despreocupada de motivos decorativos desnecessários, tendo presente em si apenas aquilo que é necessário à sua função e as linhas fundamentais que lhe concedem um equilíbrio estético.

O que me levou a optar pela chaleira Hot Bertaa foi a sua aparência minimalista, futurista, abstracta, e o facto de esta não se adaptar adequadamente à sua funcionalidade. O contraste criado pela oposição dos dois objectos demonstra como é evidente, na evolução do design, o reflexo de uma sociedade crescentemente materialista e supérflua, regida pela ostentação intelectual das aparências e subjugada à corrente das modas. 

03/10/2013

008 — Zurvan




Zurvan é um projecto musical da minha autoria, que pode ser ouvido através do meu perfil no soundcloud. A seguinte sequência de ficheiros que representa a evolução de uma composição minha, Wonderland, que orbita próxima dos eixos das sensações que encontrei no Cemitério dos Prazeres.





007 — Nexus


transcrição de ideia de um possível modelo nexus
‘True creativity depends on fostering independent thought, and the ability to peek beyond the current cultural horizons. To see beauty demands that we see freshly, that our perceptual sensitivity be attuned to discovery. After a life of accumulating theories and techniques, the artist has to toss it all and return to ground zero — an empty mind and a blank canvas. For the Zen practitioner, this state is called beginner’s mind, a surrender to not knowing what comes next, and an attunement to the flow of the creative core. In the Hindu sacred arts, surprise is one of the essential elements of beauty. In the Taoist and Zen arts, spontaneity is especially revered. Artists are self-reflective creators reliant on intuition for guidance. By questioning what has gone before and inwardly seeking the new, artists bring the vital force of creative transformation into our lives. The personal yet universal artwork both catalyses the artist’s inner spiritual progress and serves the community. The creative arts are redemptive when they deepen us, reminding us of our unity with spirit and the sublime beauty of nature and the cosmos.’
Alex Grey (The Mission of Art, 1998) 



Ex. II (inspirado em motivos gregos & bizantinos)

Ex. I (nexus mater industria)


01/10/2013

006 — ZEN IV


Este registo resulta de um desenho-mantra baseado em vestígios de carvão deixados por um exercício de auto-retrato. Funciona como meditação sobre a liquidez da identidade física, extraindo dela imagens geradas espontaneamente pelo movimento automatizado da mão.


auto-retrato

005 — ZEN II


Este registo, ZEN II, é o segundo de um tríptico que constitui um exercício de criação-meditação. Baseando-me na experiência descrita por Eugen Herrigel no seu livro 'Zen e a Arte do Tiro com Arco' (no original de 1948, Zen in der Kunst des Bogenschießens) [PDF de uma edição inglesa], em que o sensei do narrador lhe ensina a importância da correcta respiração para a espiritualização do mundano e para a libertação do ego.

«Um dos aspectos mais significativos na prática do tiro com arco - e em qualquer outra arte praticada no Japão e provavelmente também noutros países do Extremo Oriente - é o facto de não ter quaisquer propósitos utilitários, nem se destinar à pura fruição estética. Na verdade, representa um exercício da consciência, com o objectivo de a pôr em contacto com a realidade última. Assim, não se pratica o tiro com arco no mero intuito de acertar no alvo, nem se maneja a espada com o fim de vencer o adversário; o bailarino não dança apenas para executar um movimento rítmico: acima de tudo pretende-se harmonizar o consciente com o inconsciente.»                                                                   Eugen Herrigel 

Concentrando-me ao máximo na aplicação dos ensinamentos descritos por Herrigel, propus-me a deixar-me esvaziar de todas as intenções do acto do desenho, procurando que fosse o momento criativo que chegasse a mim, transfigurando-me num veículo para uma frequência que se traduziu neste desenho.

Edição da Assírio & Alvim


004 — vibração visual